sábado, 13 de fevereiro de 2016

Grey's Anatomy 12x09: The Sound of Silence



Quando há propósito.

A palavra chave para explicar o brilhantismo desse retorno de Grey’s Anatomy é “propósito”.  Quando há, de fato, propósito para que algo exista – mesmo quando aplicamos isso a um episódio de série de TV – esse algo ganha a força de mudar as coisas, de criar consciência e gerar debate. É isso que esse episódio nos traz. Esse episódio e a temporada como um todo, temos que reconhecer. Uma temporada diferente de praticamente tudo o que já vimos antes em Grey’s Anatomy, por causa de uma palavrinha: propósito.

Estou batendo muito nessa tecla pelo seguinte: existe uma descomunal diferença entre o tipo de violência e de dor que vimos em “The Sound of Silence”, para o tipo de violência e dor que essa mesma série já nos trouxe e costuma trazer. Podem analisar todas as mortes, todas as cenas de acidentes, de assassinatos, de mutilações. Façam isso e percebam o que temos aqui, o tal do propósito.

Esse é um episódio incomparável. Grey’s Anatomy já falou de assuntos importantes, mas nada se iguala ao que está sendo feito pelo empoderamento feminino.  Por isso, não digam que Shonda Rhimes e sua equipe fizeram DE NOVO a personagem sofrer ou o público sofrer. Eles não fizeram nada DE NOVO. Nesse caso é apenas NOVO. Não confundam com a estupidez gratuita daquela queda de avião, só para citar um exemplo. Nunca se falou tanto sobre o que ser mulher e ter sua voz calada dia após dia. Nunca se falou tanto sobre violência endêmica contra a mulher e sobre a aceitação que existe entre todos nós de que “acontece”, é “normal”, “faz parte”.

Reparem que esse episódio não usa de artifícios óbvios. Meredith não foi atacada de propósito (olha essa palavrinha de novo!), mas a ideia é fazer pensar. O texto, ou a falta dele, são as peças chaves para desvendar os significados ocultos em cenas sutis. Se você viu um episódio em que Meredith sofreu um ataque de um paciente, volte e faça o dever de casa, você viu esse episódio do jeito errado.

O impressionante é que todo mundo sabia. Tivemos spoilers a respeito pipocando há meses, desde o inicio do hiatus, mas eu não estava nem um pouco preparada para levar essa sequencia de socos no estômago. A narrativa inicial avisa: vozes femininas não são ouvidas. Há até motivos científicos que explicam isso, então cabe a nós, mulheres, falar o mais alto possível e mostrar que estamos aqui, existimos, pensamos, sentimos, temos talento. A interpretação é ampla aqui e ganha um lado obscuro quando ouvimos o seguinte: Silencio pode matar. E mata mulheres todos os dias, quando todos nós nos calamos diante de injustiças ou de violência.

Então, o ataque não foi planejado, pensado e apoiado em crueldade, mas fica o aviso: pode ser. Na maioria das vezes é. Meredith sofreu danos terríveis, dores que não desejamos a ninguém e vejam bem, ela tinha o apoio de amigos, família e de uma equipe médica, mas na maioria das vezes... Quem deveria ajudar finge que não viu, prefere não se meter. Esse é o tipo de ideia por trás desse roteiro provocativo e dessa atuação impecável de Ellen Pompeo. Uma atriz que pegou um roteiro poderoso e passou todas as emoções possíveis com seu olhar, com poucos gestos, com meia dúzia de grunhidos. Foi esplêndido. Fez-me chorar do inicio ao fim e sentir com ela cada segundo de agonia e desespero.
Como não se agitar diante do espancamento? Da inabilidade de ouvir? De mover-se? De estar sozinha e confinada? Assustada. Acuada. Infeliz. Magoada. Irada. Sem voz. Ellen Pompeo foi mais que Meredith Grey. Ellen Pompeo foi todas as mulheres de uma vez só.

E embora ela tenha sido a grande estrela do episódio, a serenidade de Richard chama a atenção para o perdão que liberta e que permite seguir e frente, mesmo depois de uma avalanche de tragédias. É assim que ela dá uma nova chance a si mesma, à Penélope, à Amelia e até a seu agressor. Esse é o momento em que a personagem recomeça de fato e isso é notável pela “libertação” de Alex, um amigo leal, mas que precisa seguir com a própria vida.

Esse recomeço nos mostra, portanto, que haverá ainda um longo caminho a percorrer, seja para a série, para Meredith e para nossa sociedade como um todo. Só sei que nunca vou esquecer desse episódio e do que ele significa. Sem dizer quase nada, essa série falou por todas nós e mostrou que a solução é não ficarmos calada, algo que lembra aquela hashtag poderosa: #vamosfazerumescândalo. Vamos mesmo. Seja contra violência ou contra a desigualdade em todos os níveis.
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Isotopos Springfield disse...

Li, fui lá e assisti o episódio, já tinha abandonado a série fazia tempo, li de novo o seu texto, de fato, que soco no estomago, me emocionei demais com o desespero da Mer, ela não conseguindo falar, não ouvindo, série chega na 12° temporada e prova ter folego e bom roteiro.

Anderson Luis disse...

Por mais que já sabia me dava um desespero quando cada um saia da sala para deixar a Meredith sozinha. E realmente não foi gratuito por que tem uma mensagem que aliás foi linda.
Melhor temporada de Grey's, que continue assim.

Maria Moura disse...

Sua interpretação foi perfeita. Greys está numa escalada ascendente, uma espécie de renovação e construção significativa do roteiro. Estou muito impressionada com os últimos episódios.